1a Roda de Conversa ATI

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Qual o ponto em comum entre jovens em situação de vulnerabilidade, moradores de Sapobemba, em São Paulo, com duas irmãs, “parceiras de crime” nas artes, e um jovem ator e dramaturgo? Marilia Gonçalves, Marina de Bonis, Pedro Tancini e Eveline Araujo falaram sobre suas experiências de transformação pessoal através da arte na primeira Roda de Conversas ATI (Arte, transformação e identidade), que aconteceu em 19 de julho na Cervejaria Zuraffa, em São Paulo. Para todos, ficou muito evidente: mais do que dar sabor à vida, a arte produz novos significados, abre portas e janelas para outros mundos e nos conecta a pessoas com propósitos semelhantes. Autora do livro Striptease, seu romance de estreia na também estreante Pantera Editora, Marilia Gonçalves contou com a sorte de ter em sua própria família uma dessas pessoas: Marina De Bonis, sua irmã, que se dedica ao desenho e á xilogravura, e é autora da imagem que ilustra a capa do primeiro livro de Marília. O texto de orelha do livro de Marilia é da escritora Helena Terra, uma das primeiras incentivadoras: “Esse texto de orelha veio com um brinco de pérola”, brinca Marilia.

Feliz com o lançamento do livro, Marilia conta que precisou abrir espaço em sua vida para se dedicar à escrita, assim como Marina. Ambas lembraram como, na infância, eram cobradas pela família para que sempre estivessem ocupadas com alguma função; caso contrário, poderiam “fazer arte”, com toda a conotação negativa que a expressão carregava (e ainda carrega, por vezes…). “Ainda se espera que a mulher se dedique ao cuidado, normalmente do outro: quando os filhos crescem, por exemplo, muitas são estimuladas a adotar um cachorro para ter de quem cuidar, como se o cuidado de si própria não fosse válido ou suficiente”, afirmou Marina.

O ator e dramaturgo Pedro Tancine contou sobre sua participação no processo de criação de sua peça teatral  O chá mais idiota do qual já participei em toda a minha vida, juntamente com o Coletivo Parêntesis de Teatro. Também escritor e poeta, Pedro falou sobre as particularidades de cada um dos processos, e de sua experiência em ser dirigido, lembrando que, por vezes, o despertar da identidade do personagem exige uma desconstrução dolorosa do próprio eu. Assim como Marilia Gonçalves, Pedro aposta na interlocução para aprimorar suas criações, e ambos ressaltaram a importância da participação em oficina de criação literária do escritor Marcelino Freire, onde se conheceram.

A pesquisadora Eveline Araujo, autora de tese de doutorado na Faculdade de Saúde Pública da USP sobre a criação audiovisual de jovens moradores de Sapopemba, destacou a ruptura que a inserção nas artes é capaz de promover nos discursos dominantes na realidade dessa população – sejam discursos de violência ou de doutrinação religiosa. Com essa ruptura, surge uma brecha para adentrar novas dimensões, em direção a futuros mais felizes e promissores. “Dos jovens que participaram das oficinas, todos foram para a faculdade, alguns na área de criação artística, e o fato de terem participado de um processo que terminou dentro da USP, num Festival de Cinema que exibiu suas criações, os transformou em protagonistas de suas próprias vidas. A experiência toda foi muito significativa”.

A 1a Roda de Conversa ATI também marcou o lançamento do livro de contos de Silvana Schultze, Lua em Libra, pela Editora Patuá.