Buenas Bookstore, a única livraria que funciona na madrugada paulistana

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Segundo semestre de 2013, nos fundos do Bar e Teatro Cemitério de Automóveis, numa mesa de bar. Foi assim: “O Marião (Bortolotto) estava vendendo uma parte de seus livros e HQs, e eu também estava com livros para vender. Fiz a proposta: você me dá os seus, eu vendo e dou porcentagem para o bar”. Dois meses depois teve um evento, que a amiga de ambos, Ivone FS, poeta, organizou, e aproveitou a ocasião para passar contatos de editoras para Tarcísio Buenas, proprietário da Buenas Bookstore, a única livraria que funciona na madrugada paulistana. São cinco anos em que ele está no local. Em 2017 surgiu a ideia de utilizar a frase como slogan. “Hoje como, bebo, pago moradia, com os livros e discos”.

A proximidade com o universo literário fez renascer um antigo talento. “Amigos começaram a sugerir que eu lançasse um livro baseado nos textos dos blogs On the Rocks e La Verga del Buenas”. O título do segundo blog vem do blog do escritor colombiano Efraim Medina Reyes, autor, entre outros, de “Pistoleiros/putas e dementes – greatest hits: “o autor usou o termo ´la verga´no blog que ele mantinha, e eu adotei porque achei que tinha a ver com a proposta do meu próprio blog, que era de publicar poemas eróticos”. Alguns destes poemas eróticos integram o Lado B do livro “18 de maio, quanto tens por dizer… “, primeiro livro de Tarcísio, que se meteu numa autopublicação para trazer os textos ao mundo no formato impresso.

Tarcísio pede licença para tirar o livro de minhas mãos e localizar o poema. O primeiro é descartado, pelo título. Entra aqui o segundo em preferência. Do próprio autor/livreiro:

São cinco horas e os vizinhos gemem

Somos belos seres

você e eu

acordo

e não te vejo ao meu lado

está fumando seu cigarro

na varanda

enquanto a cidade se levanta

talvez, excitada pelos gemidos dos vizinhos

que transam

loucamente aos berros: “tá doendo, tá doendo”, ela grita, desesperada

ele bate forte em sua bunda, ela grita: “goza logo, porra!”

“cala a boca, caralho!”

nunca tinha escutado a voz

daquele cara antes, parecia tranquilo…

sempre cumprimentando os moradores

do prédio Parque das Agruras

fico um bom tempo

deitado na cama olhando

para o teto

e suando frio

Leda havia dado descarga

veio caminhando

lentamente…

parou ao meu lado

debruçou e disse: “me fode”

pois não)

O segundo livro deve sair no segundo semestre de 2018, pela Editora Reformatório: “No canto da quadra”, crônicas e contos “Uma tentativa de misturar música e literatura”. Por que tentativa? “É o meu sonho, reunir os dois”. Uma história engraçada que integra o segundo livro – “história engraçada é o que mais tem, dessa história de vender livro na madrugada”:

“Com o movimento fraco, dois livros pra terminar de ler, e dois roteiros pra desenvolver, eu deveria estar em casa. Mas, se estivesse, ia perder a da noite. A da madrugada. Um casal salvou o trampo de hoje. Ele, entusiasmado com a livraria — é a primeira vez deles aqui —, me perguntou se tenho algum livro bom pra vender. Dei umas dicas e ele separou o Código de um cavaleiro do Ethan Hawke. Ela queria O Lobisomem. “Este eu não tenho”. “Ah, que pena”. “Escolha um, amor”, ele disse. E ela, deslumbrada ao ver os livros Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio do Henry Miller: “É isso, amor! É isso! É isso! Isso é que é livro!”. E veio pro meu lado: “Moço, tem Trópico de Sagitário?”. Fiquei sem saber o que dizer até cair na real de que aquilo estava acontecendo. Ela, pra ele: “Isso aqui, amor, é de uma série sobre signos…. Ai, achei! Achei! Era tudo que eu queria!”. Eu disse, constrangido: “É que esses livros são autobiográficos do Henry”. E ela: “Mas tem o de Sagitário, de Touro, Áries, Leão… “. “Veja bem, moça… É que esses livros não são sobre signos. É o Henry narrando a vida dele”. Pro amor dela: “Ah, mor, eu confundi. Depois você me dá O Lobisomem”. Ele pagou o Código de um cavaleiro e saiu com uma certeza: “Eu vou gostar desse livro. Parece com D. Quixote”. “É por aí”, eu disse.)

Buenas Bookstore, a única livraria que funciona na madrugada paulistana. Nos fundos do Bar e teatro Cemitério de Automóveis: Rua Frei Caneca, 384 (de terça a domingo a partir das 20H).

Adendo: surge um outro livro de Efraim Medina Reyes (“Esse livro é foda”): “Era uma vez o amor mas tive que matá-lo (música de Sex Pistols e Nirvana). Está esgotado, foi publicado pela Editora Planeta. Da contracapa: “Era uma vez o amor mas tive que matá-lo é um dos melhores livros publicados na Itália nesses últimos tempos. Efraim Medina, além de receber elogios dos críticos mais sérios e importantes, converteu-se em um autor de culto entre seu crescente número de leitores. O incrível é que tudo isso foi conseguido em apenas seis meses”.

Segunda-feira o Bar/teatro não abre.

 

 

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