Autismo: a esperada inclusão ainda é só teórica, por Fatima de Kwant

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Fatima de Kwant é brasileira e vive na Holanda, desde 1985. Jornalista, especializou-se em Autismo e Desenvolvimento e Autismo e Comunicação. Ativista internacional pela causa do Autismo, escreve, clinica e ministra palestras sobre o tema. Gerencia o site www.autimates.com

Em 1985 me mudei, definitivamente, para a Holanda. Casei com um holandês. Formada em Comunicação Social, queria muito trabalhar na minha área; portanto, me dediquei a aprender bem o idioma. Dois anos mais tarde, em 1987, já mãe de um bebê de dois meses, minha família e eu mudamos para a Espanha. Meu marido havia sido transferido para Barcelona pela empresa onde trabalhava, naquele momento. Ficamos na cidade durante seis meses, até que a transferência final chegasse à capital, Madri. Ali, passamos quatro anos. Durante esse período, aproveitei o tempo para estudar Letras e Literatura Espanhola. Finalmente, em abril de 1991, voltamos a residir na Holanda. No mesmo ano me tornei mãe pela segunda vez. Trabalhei como jornalista e fiz a faculdade de Turismo, em Amsterdam – área em que nunca trabalhei, a propósito.

Em 1996, nascia meu terceiro filho, o caçula e o autista, que mudaria minha vida completamente. Com ele, nasceu uma nova mãe e profissional. Totalmente envolvida no tema do autismo, estudei e graduei em Autismo & Desenvolvimento e Autismo & Comunicação. Passei a escrever sobre o tema, clinicar, e palestrar sobre o Transtorno do Espectro do Autismo. Inicialmente na Holanda; mais tarde, na Inglaterra, Portugal e Brasil, meu país de origem.

O papel da inclusão na minha vida – e na de todas as pessoas com autismo que eu auxilio – é enorme. Em todos os lugares por onde ando, noto a falta de inclusão de pessoas autistas. Em teoria, o mundo se considera preparado para aceitar, receber e dar chances aos autistas. Na prática, falta muito para que isso se torne realidade. Em todos os países onde me empenho pela causa, vejo diferentes necessidades. Na Holanda, por exemplo, há bastante conscientização, e o foco é na inclusão no mercado de trabalho. Já no Brasil, a inclusão escolar parece ser o ponto principal de discussão.

É impossível falar sobre autismo (e demais deficiências) sem considerar a inclusão. Muita gente parece esquecer que autistas são cidadãos; pessoas com direitos, vontades e objetivos. O ativismo pela causa implica, diariamente, no aspecto da inclusão de autistas na sociedade: como podem ser aceitos e inseridos na sociedade em que vivem para seu próprio bem-estar, e como contribuintes desta mesma sociedade. Inclusão é essencial. É o reconhecimento de que um cidadão (independente da sua neurologia) tem valor e é capaz de contribuir para a sociedade em que vive.

Seja como for, ainda existe muito trabalho a ser feito pela inclusão geral (escolar, social e no mercado de trabalho) de pessoas com autismo em todo o mundo, que é, de fato, para todos.

A chegada da internet e redes sociais foi um marco na divulgação de informação, em todos os sentidos. Para a causa do autismo, as redes sociais abriram um leque de possibilidades para as famílias – principalmente pais e mães –, assim como para os próprios autistas adultos com a capacidade de se comunicarem digitalmente. Além do mais, as redes sociais ampliaram o conhecimento de tratamentos e terapias (e locais onde o autismo é tratado) até a comunidade do autismo.

No mais, a tecnologia digital beneficiou a criação de aplicativos a fim de propiciar à criança, adolescente ou pessoa autista o aprendizado de competências sociais, o que tem demonstrado valor para sua inclusão social.

Particularmente, como especialista em autismo e coach de autistas adultos, vejo a tecnologia digital como um grande achado. Alguns de meus clientes (ainda) não gostam do contato pessoal, sendo que nossas sessões de coaching são través do skype, ou do chat digital. Uma vez rompida a barreira de inibição social, eles passam a visitar meu consultório para as sessões.

O autismo é um Transtorno do Neurodesenvolvimento que afeta a capacidade de Comunicação, Interação Social e Comportamento em geral de um indivíduo. É uma condição neurológica que não discrimina raça nem nacionalidade. O autismo acontece em todo o mundo. O que determina o progresso da pessoa autista, sim, são as condições favoráveis que uma nação lhes oferece. Condições favoráveis seriam: a identificação precoce do autismo; o tratamento precoce e continuado; a inclusão escolar; terapias variadas (de acordo com cada caso específico); inclusão social; direito a recreação adaptada; cursos direcionados para a família; Centros de Integração e Atendimento para o Autista; Moradia Assistida;  apoio financeiro do Estado; políticas públicas que garantam os direitos dos autistas, entre outros.

Na Holanda, grande parte destes direitos já foi conquistada. No Brasil, falta o Executivo exercer o que está na lei. A Lei 12.764 de 2012, por exemplo, garante muitos dos tópicos que descrevi, aqui, mas não tem sido respeitada. O Brasil tem leis, mas os pais de autistas ainda precisam lutar muito para conseguirem o que as leis registraram. Muitos não sabem por onde começar. Nunca ouviram falar sobre a Defensoria ou Ministério Público (MP), onde ainda podem insistir em obter o que está na lei, quando necessário. Isso após muita insistência e tempo, já que o MP nem sempre fornece as informações completas, e pais menos articulados são redirecionados à própria sorte, sem lograr o que lhes é de direito.

Quanto mais desenvolvida uma nação, mais direitos alcançados para os cidadãos mais vulneráveis. A Holanda tem uma década à frente do Brasil no que concerne a políticas públicas para os autistas e outras pessoas com deficiência. O momento de seguir a tendência, no Brasil, é agora.

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