A força transformadora do Caminho de Santiago, por Telma Puga, farmacêutica bioquímica

telma

Eu sou a Telma Puga, 45 anos, farmacêutica bioquímica. Me formei em farmácia em 1998 pela Universidade de São Paulo e desde então trabalho na área de produção de medicamentos, que é uma área que envolve uma dinâmica bem especial, a de lidar com pessoas (muitas) e processos (muitos também), ao longo dos dias. Durante esses anos de trabalho, acabei fazendo cinco pós-graduações, entre ela Homeopatia e Medicina Antroposófica que me deram grandes insights de autoconhecimento da vida. No meio de tudo isso, também fiz astrologia e os Caminhos de Santiago, algo que na Espanha são incluídos no CV profissional pois acreditam que é um diferencial  na hora da contratação, mas pra mim, considero no meu “CV de vida” mesmo.

Atualmente sou responsável pela produção de medicamentos da Weleda, indústria farmacêutica suíça, que representa parte da antroposofia através da medicina e farmácia antroposóficas, e onde encontrei um caminho profissional e pessoal que se unem e fazem muito sentido pra mim, em função da abordagem holística da medicina e dos medicamentos, tratando o processo de saúde de maneira integrada: Corpo – Mente – Espírito.

O Caminho de Santiago era algo sonhado há muito tempo, e por questões profissionais, familiares, problemas da vida cotidiana, não havia se concretizado. Mas foi em 2010, Ano Santo, que tudo começou. Fizemos a rota mais tradicional, do Caminho Francês. Foi bastante desafiador, pois estava num momento de vida super complicado, treinei pouco, mas fomos mesmo assim, eu e meu marido, levamos as bikes daqui e foi uma experiência maravilhosa! Paisagens, a nova cultura, as amizades, a solidariedade, o aprendizado,  a superação… Chegar em Santiago foi a emoção mais intensa que senti na vida, acredito que por todo o autoconhecimento que a peregrinação proporcionou. O tempo todo fazemos a analogia entre o  Caminho e vida: o que está te machucando, precisa retirar; o que está pesando precisa rever. Voltamos sempre pessoas melhores, mais leves e mais simples, como acreditamos que deva ser mesmo.

Daí para frente não paramos mais… ao todo foram quatro rotas do Caminhos de Santiago: dois caminhos franceses, um Via de la Plata e um via Lemovicensis, que sai de Vezélay, no interior da França e chega em Santiago via Caminho do Norte. Todos de bicicleta. Esse ano faremos o Caminho do Norte novamente, começando em Bordeaux logo após a maratona de Medoc, que vamos correr!

Uma das muitas experiências do caminho é a experiência gastronômica. A culinária espanhola é muito rica em sabores e variedades e, como adoro cozinhar (e comer), foi algo que me chamou muita atenção desde o começo. Ficava investigando as receitas, perguntando para os hospitaleiros como preparar, e por isso acabei fazendo a palestra na Associação dos Confrades e Amigos do Caminho de Santiago (ACACS) que explorou um pouco o tema. Os pratos espanhóis não se resumem só  aos consagrados como paellas, tortillas, bocadillhos, jamóns, que aparecem em todas as regiões, mas há também  os regionais, que variam de acordo com a agricultura, pecuária e pesca local. Isto traz uma gama de sabores incríveis, e uma criatividade admirável! A Espanha tem vários dos melhores restaurantes do mundo, de acordo com o guia Michelin, o que reforça a magnitude de sua gastronomia.

A cada caminho, fazemos sempre muitas amizades; amizades que são mantidas ao longo dos anos, acredito que pela afinidade e aliança de propósitos que temos com o Caminho. Temos muitos temas em comum para conversar, é como se fizéssemos parte de uma sociedade iniciática que só os membros entendem as emoções e a ligação profunda com o caminho.

Procurei a Acacs pois gostaria de fazer algo pelos peregrinos iniciantes,  por agradecimento e gratidão a todos os aprendizados dados pelos Caminhos e por Santiago, e para poder ajudar de alguma forma a proporcionar experiências tão maravilhosas quanto as que tive. Estar em contato com os peregrinos é também uma forma de estar em contato com o Caminho e com toda a força transformadora que ele gera, há milhares e milhares de anos.

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