Sobre oficinas e coletivos literários, por Paula Bajer, escritora

paula

Sempre quis ser escritora. Tinha várias ideias, escrevia diários, anotações, textos de reflexão. Em um primeiro momento queria ser jornalista. Terminei o ensino médio (na época era colegial) no fim da ditadura e achava o trabalho da imprensa desafiador. Mas acabei cursando Direito por influência de meus pais. Acreditava que o Direito podia transformar a sociedade e ajudar as pessoas a reconquistarem a liberdade. Fui advogada por muitos anos e há mais de vinte tenho uma carreira pública. Meu trabalho tem sido voltado à proteção de grupos vulneráveis. Há alguns anos cheguei à conclusão de que, se ainda  quisesse ser escritora, deveria levar o projeto a sério. E comecei. Escrevi exercícios de romance. E a certa altura comecei a perceber que  precisava de método e técnica e de leitores. Como eu não mostrava para ninguém o que escrevia, não sabia qual a reação aos meus textos. Eu não sabia se escrevia bem ou mal. E comecei a frequentar aulas particulares com uma professora de texto e de português, Malu Zoega. A Malu a certa altura me disse que seria bom se eu frequentasse uma oficina literária e me indicou a do Marcelino Freire. E foi assim que me inscrevi e fiz uns três semestres de oficina com o Marcelino. No último semestre o Nelson de Oliveira também dava aulas, ele também foi muito importante para que eu pegasse confiança na minha escrita. Descobri que meus textos provocavam reações nas pessoas, que tinham impacto, que provocavam algum riso também. Isso foi importante. Fiz amigas, lá, e formamos um Coletivo, o Coletivo Literário Martelinho de Ouro. Nós nos reunimos até hoje e publicamos muito juntas, antologias e fanzines. Acho importante fazer oficinas literárias porque encontramos pessoas que gostam de ler e escrever e paramos de nos sentir estranhas quando estamos com elas. Frequentei a oficina do Cadão Volpato por bastante tempo,  já fiz oficina com Roberto Taddei, Ronaldo Bressane, com o jornalista Ivan Marsiglia. Com todos e com os grupos conheci autores novos e descobri um aspecto diferente da minha escritura. Eu sou muito curiosa.  Hoje não faço mais oficinas. Até gostaria porque é um modo de encontrar leitores e ouvintes perspicazes, mas já passou o tempo da oficina pra mim. Escrevi três romances: “Viagem sentimental ao Japão” (Apicuri), “Nove Tiros em Chef Lidu” (Circuito e e-galáxia em versão digital) e “Feliz aniversário, Sílvia” (Editora Patuá), os dois últimos policiais.  Meus policiais seguem a linha de Simenon e de Lawrence Block, que conheci por meio de uma professora de espanhol. Acho estudar línguas importante para se escrever melhor em português. Falar uma língua diferente gera uma reprogramação importante para a criatividade, para uma visão diferente da realidade.  Estou sempre em contato com espanhol, inglês e alemão. Tenho muitos contos de suspense, também, contos policiais publicados nas coletâneas do Martelinho, tenho um livro de contos digital, Asfalto (e-galáxia) , que está nas plataformas digitais. Também integro o Mulherio das Letras, tenho participado de  suas publicações, participarei das próximas que serão lançadas no Mulherio no Guarujá. No Mulherio conheci escritoras super legais, tive contato com um tipo de feminismo que antes me escapava, percebi que talvez exista, de fato, uma visão literária masculina predominante e que isso precisa mudar.

Além do que já disse acima, fiz muitos outros cursos e procuro estar em conversas literárias, leio muito sobre produção literária, gosto de crítica literária. Eu leio e estudo bastante. Tenho dois blogues: lolitaimaginario.com e cheflidu.com. O primeiro existe desde 2009, escrevo lá regularmente. O segundo é mais recente. Tive vontade de fazer um making of de meu policial “Nove tiros em Chef Lidu”, e concentro textos, ali, sobre literatura policial e suas curiosidades. Já fiz dois fanzines só meus, além daqueles do Martelinho de Ouro. Um deles com ilustras e arte de Rodrigo Terra Vargas, “O mergulho”. O outro se chama “Rosa”, tem arte de Isadora Porfírio. “Rosa” é um conto policial, que também publiquei no fanzine do Coletivo Literário Martelinho de Ouro lançado na Casa do Desejo coordenada por Eduardo Lacerda e pela Editora Patuá, na Flip de 2018. Estou sempre escrevendo, ainda que mentalmente. Não tenho nenhuma preparação especial para escrever, eu me sento e escrevo, às vezes no computador, às vezes no notebook, às vezes no celular.

O Coletivo Mulherio das Letras ampliou muito meu modo de compreender o mundo literário. O Coletivo Literário Martelinho de Ouro, que é só de mulheres, é também essencial porque publicamos, juntas, e com liberdade,  livros e fanzines. Regina Junqueira, que coordena o grupo, conhece muito literatura, diagramação e publicidade, e nossos livros saem sempre bonitos, além de interessantes. A Editora Patuá, que publicou meu último romance, “Feliz aniversário, Sílvia”, já publicou dois livros do nosso coletivo: “Sub” e “Eu não sou aqui”. A Editora Patuá e o Eduardo Lacerda têm impulsionado e inovado a literatura brasileira de uma maneira mais do que contemporânea. Eu acho que Eduardo Lacerda é um editor muito à frente de seu tempo.

Também sou sócia da ABERST, “Associação brasileira dos escritores de romance policial, suspense e terror”, presidida por Cláudia Lemes, que tem muitos livros publicados e a maior intenção de, com uma super equipe, provocar ações que fortaleçam a literatura de suspense. Tem sido bom participar de coletivos, aprender com todos e construir também, cada vez mais, minha identidade.

Agora quero reunir meus contos em uma só publicação e estou escrevendo um  policial:  uma moça vai buscar seu companheiro na prisão depois de cumprir a pena e ele não aparece. Também participo de algumas coletâneas que serão lançadas até o fim do ano, todas com grupos de mulheres.

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