Tradução colaborativa e estudos feministas de tradução

pontes_outras

Pontes Outras é um projeto alinhado aos estudos feministas de tradução, voltado à difusão de autoras, crítica, teoria, tradução de textos de/por mulheres. É integrado por Emanuela Siqueira, Julia Raiz e Beatriz Regina Guimarães Barboza, que se reuniram para escrever este texto sobre a fundação do projeto, os objetivos, dificuldades e expectativas.

Em maio de 2017, o então GEDEF (Grupo de Estudos Decoloniais e Feministas: Vozes Subalternas na Literatura e na Tradução) — posteriormente GEFLIT (Grupo de Estudos Feministas na Literatura e na Tradução), pois o nome foi reformulado para abarcar propostas mais amplamente — realizou o simpósio “I Simpósio: Feminismo e Decolonialidades na Literatura e na Tradução”, na UFSC. Como Beatriz é uma das integrantes do grupo, em nosso simpósio ela conheceu o trabalho de Julia Raiz e Emanuela Siqueira, alunas da pós em Literatura na UFPR, no qual traduziam os poemas do livro Kinky de Denise Duhamel. Tivemos grande afinidade e mantivemos contato após o evento, reconhecendo entre nós um interesse comum pela crítica literária feminista e seu entrelaçamento com a tradução, além de nossa própria prática de tradução de textos escritos por mulheres. Além disso, enquanto Emanuela e Julia seguiam traduzindo os poemas da Denise, Julia propôs à Beatriz que traduzissem juntas o livro Ítaca da Francisca Aguirre, e foi ali que reconheceram novamente a potência da tradução colaborativa. Ajudamo-nos com dúvidas, pensamos várias possíveis soluções, além de revisarmos as traduções uma da outra, chegando a versões finais com as quais nos sentíamos mais seguras do que com aquelas inicias que havíamos feito.

Inspiradas por nossas práticas e por leituras nos Estudos Feministas de Tradução, em junho de 2017 surgiu a ideia entre nós de elaborarmos um site que fosse uma plataforma para textos de e sobre mulheres em tradução, que já estava na mente de Manu há tempos. Para nós é visível a necessidade de fazer circular esses textos, assim como estabelecer redes de tradutoras/es, escritoras/es e autoras/es, e um site poderia nos ajudar nisso. Por estarmos todas também vinculadas ao meio acadêmico, além do editorial enquanto autoras e/ou tradutoras, também poderíamos colaborar oferecendo referenciais teóricos e práticos em nosso site, para que alimentássemos o interesse pelos Estudos Feministas de Tradução e como podem ajudar em projetos feministas interseccionais. Além disso, por nossa experiência de tradução colaborativa, queríamos auxiliar novas parcerias, que tradutoras/es pudessem se conhecer e pensar projetos coletivamente. Sentíamos falta de mais mulheres serem conhecidas na literatura, de ler traduções de seus trabalhos, de ter acesso a reflexões sobre tradução de textos escritos por mulheres, e ainda promover traduções de textos teóricos de áreas diversas que tenham uma perspectiva feminista. Depois de um ano, é essa motivação que ainda nos guia.

Nós três, Beatriz, Manu e Julia, nos conhecemos durante um evento de tradução na UFSC, organizado pelo GEFLiT (Grupo de Estudos Feministas na Literatura e na Tradução) e lá já aconteceu um reconhecimento imediato dos pontos de convergência entre nossas pesquisas e interesses acadêmicos/profissionais/pessoais. Meses depois, começamos a desenvolver a ideia que a Manu e a Beatriz já tinham idealizado de criar um espaço de encontro e incentivo à tradução coletiva como alternativa a um trabalho que muitas vezes é feito isoladamente. Tendo como ponto de partida a nossa própria prática de estudar, traduzir, escrever e revisar em duplas ou grupos de mulheres, quisemos ampliar e criar uma rede de trabalho, não só pra divulgar a literatura escrita por autoras, mas também pra pensarmos com mais atenção os processos de tradução, revisão, publicação e distribuição. O esforço vai todo ao encontro da necessidade de nos colocarmos no cenário de tradução como trabalhadoras, estamos usando a internet e essa rede de contatos em formação pra criar uma plataforma de visibilidade do nosso trabalho. É claro que saber que podemos contar uma com a outra durante essa trajetória, tanto pra apoio técnico, quanto pra apoio moral ajuda bastante diante dos desafios que temos pela frente. Para que o trabalho em grupo não seja desgastante, exercitamos a paciência e não ficamos nos cobrando com prazos. Sabemos que cada uma tem seu tempo e que a Pontes Outras é um projeto que exige dedicação a longo prazo.

As possibilidades para a Pontes Outras ainda são muitas, estamos apenas no começo tanto da construção do que já temos como características fundantes do projeto, quanto do exercício imaginativo de pensar novas estratégias. Precisamos fortalecer a construção do arsenal teórico/instrumental no blog, isso é uma preocupação compartilhada. Para o futuro próximo, temos a vontade de publicar entrevistas com tradutoras(es) falando sobre suas dificuldades, soluções, estratégias, alianças teóricas-políticas, sugestões. A ideia, trazida pela Manu, vai ao encontro do projeto como um todo: pensar tradução em seus contextos diversificados de produção e circulação/recepção.

Acredito que uma das principais dificuldades que nós todas enfrentamos é o tempo. Todas nós precisamos nos dedicar às nossas pesquisas, aos nossos escritos (críticos e/ou criativos), às nossas traduções, aos nossos engajamentos (de ordem política, artística e/ou espiritual, pensando nas especificidades das vidas de cada uma de nós três) e tudo que a vida cotidiana demanda de nós. Na Pontes Outras, começamos com um ritmo semanal de postagens, mas já faz algum tempo que temos publicado mais esparsamente. Infelizmente, isso também reduz nosso alcance e a quantidade de colaborações que recebemos por conta dessa divulgação. No entanto, não desanimamos, e ainda que sigamos vagarosamente, queremos continuar com a proposta do site.

Outra dificuldade, que acabamos mencionando acima, é entrar em contato com tradutores/as e especialistas na literatura de mulheres pouco ou não traduzidas no Brasil. Felizmente temos nossas próprias redes: Julia e Emanuela com pessoas de Curitiba, tanto da UFPR quanto fora, do estado de São Paulo e do Rio de Janeiro, enquanto Beatriz também tem contato com o interior de São Paulo e faz a conexão com a Pós-Graduação em Estudos da Tradução em Florianópolis. Conhecemos pessoas também no Rio Grande do Sul, em Brasília, em Maceió, e seguimos estabelecendo novos contatos. Nosso principal canal de divulgação do conteúdo do site é o Facebook, então dependemos muito de nossos perfis pessoais para que o conheçam através da página.

Por fim, falta-nos ainda mais acesso a tradutores/as e especialistas que tratem de literaturas não hegemônicas de uma perspectiva atenta e crítica. Tivemos sorte de receber trabalhos como as traduções de Safia Elhillo por Stella Paterniani, outras de María Emilia Cornejo e Amparo Osorio por Lucas Perito, assim como de Nina Avellaneda por Eder Porto de Santana,  de Jamila Medina Ríos e Legna Rodríguez Iglesias por Mariana Ruggieri, por exemplo. Por nós mesmas, Julia traduziu poemas de Gabriela Mistral e Gabriele Bejerman, enquanto alguns desta eu também traduzi, assim como da Maria-Mercè Marçal. Recentemente, Elena Manzato traduziu Sibilla Aleramo. Acredito que isso deriva do limite do alcance de nossas redes, limitadas às pessoas que pudemos conhecer e aquelas que se conectam com elas. Portanto, espero que, com o tempo, ainda que lento, consigamos expandir nossas redes, e que com esse alcance, tenhamos também contribuições outras.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s