Tradução colaborativa e estudos feministas de tradução

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Pontes Outras é um projeto alinhado aos estudos feministas de tradução, voltado à difusão de autoras, crítica, teoria, tradução de textos de/por mulheres. É integrado por Emanuela Siqueira, Julia Raiz e Beatriz Regina Guimarães Barboza, que se reuniram para escrever este texto sobre a fundação do projeto, os objetivos, dificuldades e expectativas.

Em maio de 2017, o então GEDEF (Grupo de Estudos Decoloniais e Feministas: Vozes Subalternas na Literatura e na Tradução) — posteriormente GEFLIT (Grupo de Estudos Feministas na Literatura e na Tradução), pois o nome foi reformulado para abarcar propostas mais amplamente — realizou o simpósio “I Simpósio: Feminismo e Decolonialidades na Literatura e na Tradução”, na UFSC. Como Beatriz é uma das integrantes do grupo, em nosso simpósio ela conheceu o trabalho de Julia Raiz e Emanuela Siqueira, alunas da pós em Literatura na UFPR, no qual traduziam os poemas do livro Kinky de Denise Duhamel. Tivemos grande afinidade e mantivemos contato após o evento, reconhecendo entre nós um interesse comum pela crítica literária feminista e seu entrelaçamento com a tradução, além de nossa própria prática de tradução de textos escritos por mulheres. Além disso, enquanto Emanuela e Julia seguiam traduzindo os poemas da Denise, Julia propôs à Beatriz que traduzissem juntas o livro Ítaca da Francisca Aguirre, e foi ali que reconheceram novamente a potência da tradução colaborativa. Ajudamo-nos com dúvidas, pensamos várias possíveis soluções, além de revisarmos as traduções uma da outra, chegando a versões finais com as quais nos sentíamos mais seguras do que com aquelas inicias que havíamos feito.

Inspiradas por nossas práticas e por leituras nos Estudos Feministas de Tradução, em junho de 2017 surgiu a ideia entre nós de elaborarmos um site que fosse uma plataforma para textos de e sobre mulheres em tradução, que já estava na mente de Manu há tempos. Para nós é visível a necessidade de fazer circular esses textos, assim como estabelecer redes de tradutoras/es, escritoras/es e autoras/es, e um site poderia nos ajudar nisso. Por estarmos todas também vinculadas ao meio acadêmico, além do editorial enquanto autoras e/ou tradutoras, também poderíamos colaborar oferecendo referenciais teóricos e práticos em nosso site, para que alimentássemos o interesse pelos Estudos Feministas de Tradução e como podem ajudar em projetos feministas interseccionais. Além disso, por nossa experiência de tradução colaborativa, queríamos auxiliar novas parcerias, que tradutoras/es pudessem se conhecer e pensar projetos coletivamente. Sentíamos falta de mais mulheres serem conhecidas na literatura, de ler traduções de seus trabalhos, de ter acesso a reflexões sobre tradução de textos escritos por mulheres, e ainda promover traduções de textos teóricos de áreas diversas que tenham uma perspectiva feminista. Depois de um ano, é essa motivação que ainda nos guia.

Nós três, Beatriz, Manu e Julia, nos conhecemos durante um evento de tradução na UFSC, organizado pelo GEFLiT (Grupo de Estudos Feministas na Literatura e na Tradução) e lá já aconteceu um reconhecimento imediato dos pontos de convergência entre nossas pesquisas e interesses acadêmicos/profissionais/pessoais. Meses depois, começamos a desenvolver a ideia que a Manu e a Beatriz já tinham idealizado de criar um espaço de encontro e incentivo à tradução coletiva como alternativa a um trabalho que muitas vezes é feito isoladamente. Tendo como ponto de partida a nossa própria prática de estudar, traduzir, escrever e revisar em duplas ou grupos de mulheres, quisemos ampliar e criar uma rede de trabalho, não só pra divulgar a literatura escrita por autoras, mas também pra pensarmos com mais atenção os processos de tradução, revisão, publicação e distribuição. O esforço vai todo ao encontro da necessidade de nos colocarmos no cenário de tradução como trabalhadoras, estamos usando a internet e essa rede de contatos em formação pra criar uma plataforma de visibilidade do nosso trabalho. É claro que saber que podemos contar uma com a outra durante essa trajetória, tanto pra apoio técnico, quanto pra apoio moral ajuda bastante diante dos desafios que temos pela frente. Para que o trabalho em grupo não seja desgastante, exercitamos a paciência e não ficamos nos cobrando com prazos. Sabemos que cada uma tem seu tempo e que a Pontes Outras é um projeto que exige dedicação a longo prazo.

As possibilidades para a Pontes Outras ainda são muitas, estamos apenas no começo tanto da construção do que já temos como características fundantes do projeto, quanto do exercício imaginativo de pensar novas estratégias. Precisamos fortalecer a construção do arsenal teórico/instrumental no blog, isso é uma preocupação compartilhada. Para o futuro próximo, temos a vontade de publicar entrevistas com tradutoras(es) falando sobre suas dificuldades, soluções, estratégias, alianças teóricas-políticas, sugestões. A ideia, trazida pela Manu, vai ao encontro do projeto como um todo: pensar tradução em seus contextos diversificados de produção e circulação/recepção.

Acredito que uma das principais dificuldades que nós todas enfrentamos é o tempo. Todas nós precisamos nos dedicar às nossas pesquisas, aos nossos escritos (críticos e/ou criativos), às nossas traduções, aos nossos engajamentos (de ordem política, artística e/ou espiritual, pensando nas especificidades das vidas de cada uma de nós três) e tudo que a vida cotidiana demanda de nós. Na Pontes Outras, começamos com um ritmo semanal de postagens, mas já faz algum tempo que temos publicado mais esparsamente. Infelizmente, isso também reduz nosso alcance e a quantidade de colaborações que recebemos por conta dessa divulgação. No entanto, não desanimamos, e ainda que sigamos vagarosamente, queremos continuar com a proposta do site.

Outra dificuldade, que acabamos mencionando acima, é entrar em contato com tradutores/as e especialistas na literatura de mulheres pouco ou não traduzidas no Brasil. Felizmente temos nossas próprias redes: Julia e Emanuela com pessoas de Curitiba, tanto da UFPR quanto fora, do estado de São Paulo e do Rio de Janeiro, enquanto Beatriz também tem contato com o interior de São Paulo e faz a conexão com a Pós-Graduação em Estudos da Tradução em Florianópolis. Conhecemos pessoas também no Rio Grande do Sul, em Brasília, em Maceió, e seguimos estabelecendo novos contatos. Nosso principal canal de divulgação do conteúdo do site é o Facebook, então dependemos muito de nossos perfis pessoais para que o conheçam através da página.

Por fim, falta-nos ainda mais acesso a tradutores/as e especialistas que tratem de literaturas não hegemônicas de uma perspectiva atenta e crítica. Tivemos sorte de receber trabalhos como as traduções de Safia Elhillo por Stella Paterniani, outras de María Emilia Cornejo e Amparo Osorio por Lucas Perito, assim como de Nina Avellaneda por Eder Porto de Santana,  de Jamila Medina Ríos e Legna Rodríguez Iglesias por Mariana Ruggieri, por exemplo. Por nós mesmas, Julia traduziu poemas de Gabriela Mistral e Gabriele Bejerman, enquanto alguns desta eu também traduzi, assim como da Maria-Mercè Marçal. Recentemente, Elena Manzato traduziu Sibilla Aleramo. Acredito que isso deriva do limite do alcance de nossas redes, limitadas às pessoas que pudemos conhecer e aquelas que se conectam com elas. Portanto, espero que, com o tempo, ainda que lento, consigamos expandir nossas redes, e que com esse alcance, tenhamos também contribuições outras.

 

Xibio, de Luiz Renato (Editora Carlini & Caniato, 2018)

Terceiro romance de uma trilogia que levou vinte anos para ser encerrada, Xibio traz a afirmação: “Marido é aquilo que vai te trair um dia”. A certeza da traição acompanha a personagem, viúva de um homem a quem não amava mais, de quem nunca viu o corpo. Ouviu dizer que morrera, assim como ouviu dizer sobre as fantasiosas traições que lhe atribuíam a este mesmo marido, enquanto casados: “O que sabiam se nada houve?”. Provavelmente, nada sabiam. Maledicência gratuita capaz de ferir um caráter, acabar com uma vida.

Luiz Renata traça com delicadeza a trajetória de um casal que enfrentou, muito cedo, um episódio que o marcaria para sempre, pela ausência do não-planejado – a protagonista relembra com clareza e detalhes o dia em que, ainda na faculdade, ela e o companheiro decidiram a trajetória de seu relacionamento, uma decisão que depois seria questionada nos momentos de solidão acompanhada. O marido não tinha tempo para ela, nem o interesse que demonstrava pelos seus alunos, o interesse que um rapaz mais novo, filho de uma prostituta, mais tarde demonstraria, remexendo desejos e segredos, sem se esforçar para esconder as cartas marcadas de seu baralho: duas damas.

Uma vida de perdas, de partidas, de amputação de sonhos. Esse é o universo da protagonista. Um universo povoado de loucuras, não exatamente vividas, mas imaginadas, fantasiadas, escritas. “Leio essas loucuras que escrevi naquele tempo em que as coisas não iam bem entre a gente”. É para Pedro que ela escreve. Pedro, o marido, que era o cara, com quem ela imaginou um futuro que seria um todo, e não parte. A vida quis que fosse parte, sim, como parte o rapaz não nomeado, agraciado com alguns momentos de intimidade, ainda antes de começar a olhar pela janela, sonhador, para o mar. As cartas das duas damas sobre a mesa.

San Mascarenhas,de rádio e TV à medicina ayurvédica

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Desde minha trajetória na Unesp em Bauru onde me graduei no curso de Rádio e TV, parte do programa de Comunicação Social da Unesp, porém meu lado da arte e terapias
estavam pulsando forte, tornando-se mais latente quando conheci, no primeiro ano da faculdade, o Instituto Visão Futuro, uma ecovila auto-sustentável localiza em Porangaba, onde realizei, em paralelo à faculdade, cursos de bio psicologia e medicina ayurvédia,
além de Hatha Yoga e meditação.
A intensidade de minha entrega a esse local foi tanta, que ao me graduar na Unesp, decidi morar no Visão Futuro e a partir dessa decisão nunca mais larguei a arte e a terapia, pois nesse local de aprendizados intensos e constantes para mim, eram também ministrados cursos aos finais de semana para centenas de pessoas que vinham de variados estados do Brasil e eu sendo da equipe responsável pelo teatro ritualístico baseados aos temas dados durante o curso. Meu amor e entrega, tanto aos temas do curso, que eram traduzidos numa releitura ao teatro ritualístico, quanto atuar em temas que pulsavam em mim como até hoje pulsam, foi algo imensamente gratificante e rico ecoando até hoje; agora como terapeuta e ministrando cursos essa sensação só cresce em mim  fortalecendo e expandindo a gratidão e entrega a cada dia, pois em paralelo realizo, como hobby, Performance e Performance Miltimídia em apresentações em Sescs, em Festivais temáticos Universitários, espaços de arte, etc. Esses ofícios que realizo com total prazer e entrega, me proporcionam sentir a plena realização em meu campo profissional, tanto que a sala que atendo é co-working com a Spectra filmes,  a produtora de cinema da qual sou também a produtora, aqui em Moema, na cidade de São Paulo, outro amor profissional que justifica o motivo por ter escolhido Rádio e Tv numa época onde cinema na Usp era extremamente concorrido.
Enfim, só sincronias e realizações em minha vida continuamente após a primeira decisão realizada. Posso hoje contar com variados parceiros na área do cinema, como diretores, produtores, etc., pois trabalhando no meio cinematográfico a     troca e  parcerias existem, cinema engloba um mundo dentro da equipe formada e muito coração gentileza e amor nas concretizações, ao menos esse é meu modo de trabalhar expandindo em paralelo meu ser por inteiro, independente do meio em que atuo.
Na área das terapias que realizo, esta se concentra exclusivamente em grupos de
estudos, trocas de informações e supervisões  nos enriquecendo constantemente. A menina dos meus olhos nesse momento são os cursos de meditação, onde a criatividade irá imperar para difundir essa preciosidade para inúmeras pessoas ou em inúmeros acessos, quando foco na linguagem virtual, porém uma outra linguagem, o cinema, o encantador e maravilhoso entrará na meditação e essa será minha grande criação da vida, opa, a segunda, pois a primeira é sem sombra de dúvida a minha filha ideal a Nina Mascarenhas de 16 anos. Sem estabelecer o meio como esse filme se concretizará, se modo colaborativo; por leis de incentivo ou lei do fomento. Enfim, sei que se concretizará e em breve esse filme sobre Meditação onde o roteiro já iniciei estando inclusive patenteado.

O caranguejo e outras histórias de amor, sedução e morte, de Liniane Haag Brum (Editora Patuá, 2017)

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Há quase um ano, estive no lançamento deste livro – não demorei muito para começar a leitura, e quando comecei, não consegui largar até terminar. Meses depois, alguns contos ainda estão frescos em minha cabeça. Como não se identificar com a menina magricela que ganha um beijo do menino descolado? Logo eu, que também fui uma menina magricela, embora desconhecesse os apelidos jocosos dados às meninas realmente magricelas? E se não ganhei um beijo do menino descolado no primeiro bailinho, ganhei uma dança do irmão mais velho do menino descolado, mais velho e muito mais alto, talvez o único mais alto do que eu ali, talvez este o motivo para ele me tirar para dançar; uma família de cavalheiros, aquela.

Ao longo dos 19 contos do livro, Liniane vai do beijo da menina de “11-12 anos” à morte de um passarinho – pena que vira brinco, patuá quase macabro, não estivesse a própria Editora Patuá, a mesma de meu “Lua em libra”, presente no colofão de “Caranguejo”: “Fissuras afetivas, desamores que são amores: o que se passa entre esses cortes? Que magia os faz passar? Magia, benzedura, mandinga, figa, talismã, varinha de condão: Patuá”.

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Liniane é, além de escritora, pesquisadora e docente, e leitora crítica das mais eficientes. Alcança a ponta do fio no meio do novelo, elogia o que há para elogiar, insiste para que se puxe os fios (ainda muito) profundamente enovelados. “Tive uma professora que dizia que o autor não acompanha a obra”, explica Liniane. Sábia professora. Recado dado, resta a reflexão sobre o que se quer que o leitor saiba deste(a) autora, para separar o joio do trigo. Nem tudo deve ser falado, nem tudo deve ser escrito. Algumas coisas devem ficar restritas à imaginação.

E é esse convite à deixar a imaginação fluir o que vejo como o grande mérito do “Caranguejo” de Liniane H. Brum: os cortes secos dos contos, sobre os quais a autora do texto de orelha, Annita Costa Malufe, nos fala (“Nós, leitores, ficamos vez ou outra no ar, suspensos por essas bruscas interrupções, confrontados com a casca de um caranguejo e suas garras”). São esses cortes abruptos que nos permitem, entre as linhas a mais que poderiam ter existido antes ou depois de cada final , preencher nossos próprios espaços, cientes de que a expectativa pelo final da história é problema do leitor, e não do autor – a este, cabe mexer com nossas emoções e sentimentos, e isso Liniane faz com muita graça e leveza.

Quando rever uma política editorial é necessário/bem-vindo (#3)

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Quando idealizei esse blog, julgava que a alimentação com conteúdo seria rápida e tranquila, e por isso fui extremamente otimista em determinar que a atualização seria diária, talvez semanal. Uma rápida olhada no histórico de postagens já mostra que superestimei minha própria capacidade. Decidi, entretanto, não me permitir desistir deste projeto, e sigo adiante, assumindo os percalços e dificuldades pessoais.

Uma dessas dificuldades pessoais diz respeito à minha própria relação com tecnologia e mídias sociais digitais: ora desconfiada, ora confiante, não consegui ainda estabelecer um padrão de uso contínuo, ou mesmo um hábito de consumo, o que me transforma, até onde entendo, numa usuária complexa de se classificar. Sendo assim, me proponho a, durante um mês, fazer uma experiência de alimentação deste blog que servirá, espero, de exercício para meus temores em relação ao espaço que as mídias sociais ocupam na vida das pessoas: a dedicação ao blog será restrita às segundas-feiras, seja para buscar conteúdo a ser gerado/compartilhado (e nisso incluo convites para colaboradores, conforme minha determinação, já expressa em artigo anterior desta série, de contar com a palavra de outros para difundir temas que me são caros), seja para trabalhar a divulgação.

E é neste ponto – a divulgação – que vem encalacrando acredito que não só a minha iniciativa de distribuição de conteúdo, mas provavelmente a de muita gente: como e onde divulgar. E, talvez o mais importante, para que divulgar. Afinal, sempre é possível escrever praticamente para si próprio, sem fazer o menor alarde. No meu caso, a divulgação faz sentido porque acredito piamente numa função social da comunicação. Voltemos, então, ao como e onde. Descobri que o próprio WordPress conta com uma função de comercialização – acredito eu, de produtos e serviços. Inclui-se, aí, produção de conteúdo? Se alguém souber, por favor me informe, e aproveite para me explicar como se dá essa mágica.

Por enquanto, vou restringir minhas tarefas ao desafio semanal de manter esse blog funcionando razoavelmente. O resto, o tempo dirá.

Das linguagens imagéticas como perspectiva de inclusão social em bibliotecas à contribuição de bibliotecas híbridas para o desenvolvimento de comunidades: a trajetória da pesquisadora Rafaela Carolina Silva

Rafaela Carolina da Silva

Rafaela Carolina Silva é doutoranda e mestra em Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, na linha de Pesquisa Gestão, Mediação e Uso da Informação. Bolsista FAPESP, foi também bolsista CAPES, e é membro do Grupo de Pesquisa Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional (ICIO). “A pesquisa que desenvolvo hoje foi decorrente dos estudos que iniciei na Graduação, onde eu pesquisei as linguagens imagéticas como perspectiva de inclusão social em bibliotecas”, explica Rafaela Carolina, que fez Mestrado Sanduíche na Robert Gordon University, Escócia, Reino Unido (entre setembro e dezembro de 2016). Especialista em Psicopedagogia Institucional pela Fundação para o Desenvolvimento do Ensino, Pesquisa e Extensão  Marília/SP, graduada em Biblioteconomia pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, onde também foi bolsista FAPESP, Rafaela Carolina atualmente dedica-se à pesquisa científica, trabalhando principalmente na interdisciplinaridade dos temas: Bibliotecas híbridas; Conceito de hibridez em bibliotecas; Desenvolvimento social; Gestão da informação; e Desenvolvimento de comunidades.

O mestrado de Rafaela Carolina se baseou em um estudo de caso em âmbitos nacional (Brasil) e internacional (Inglaterra e Escócia), onde procurou entender como funcionavam essas bibliotecas, denominadas híbridas, na prática. “Com o caminhar da minha pesquisa (de graduação), descobri que a convergência entre mídias analógicas e digitais nos levava ao conceito de bibliotecas híbridas, portanto, no Mestrado, elas foram meu objeto de estudo”. Ao perceber que a literatura da área da Ciência da Informação conceitualizava a hibridez em bibliotecas apenas sob a perspectiva do uso de tecnologias, embora seus estudos práticos e teóricos demonstrassem que o conceito de bibliotecas híbridas vai além do uso de tecnologias, visando, principalmente, ao desenvolvimento social de comunidades, Rafaela Carolina buscou, em sua pesquisa de Doutorado, criar um conceito de bibliotecas híbridas que abranja a esfera cultural, no âmbito do desenvolvimento social, em bibliotecas. “Busco discutir não somente o envolvimento das tecnologias em bibliotecas, como nos parece ser o senso comum da hibridez nesse âmbito, mas também a maneira pela qual a biblioteca híbrida pode contribuir para o desenvolvimento social de comunidades”.

Para Rafaela Carolina, a área da Ciência da informação é fascinante, pois, permite com que outros campos do conhecimento, como a Administração, o Direito, a Contabilidade, a Educação, a Filosofia, a Tecnologia em Informação, dentre outros, possam se inserir no nosso contexto, possibilitando que pesquisadores dos mais variados âmbitos do conhecimento desenvolvam pesquisas na área, de modo a contribuir para o crescimento dessa ciência multidisciplinar. “Em relação ao reconhecimento da área, vejo que ela é mais desconhecida quando se tratando do âmbito mercadológico, pois, é comum conversarmos com pessoas atuantes no mercado de trabalho que desconhecem nossa área e a confundem com áreas afins, como a Tecnologia em Informação, por exemplo”, afirma ela. “Contudo, quando se trata do âmbito acadêmico, percebo que, nos últimos anos, pelo menos no Programa de Pós-Gradução onde eu estudo, a procura pelos cursos de Mestrado e Doutorado vem sendo cada vez maior, o que mostra um resultado positivo do reconhecimento da Ciência Informação”.

Perguntada se o pesquisador acadêmico teria uma função de dialogar com a sociedade, a pesquisadora é enfática: “Com toda certeza! Tudo o que pesquisamos interfere, de maneira mais ou menos indireta, em sociedade, portanto, a necessidade desse diálogo”. Sobre a possibilidade de fazer uma ponte entre o que é produzido dentro da academia e aplicações diretas das pesquisa, e se ela mesma consegue fazer essa ponte, ou conhece iniciativas nesse sentido, Rafaela Carolina vai além: “Algumas maneiras de promover a dialogicidade entre a academia e a sociedade são: promoção de palestras que demonstrem as pesquisas desenvolvidas pelos pesquisadores da instituição para a sociedade em geral, o que possibilita seu contato com o meio acadêmico e o possível despertar de um olhar pesquisador (os eventos desenvolvidos em Ciência da Informação na Unesp permitem esse contato); designação de alunos que possam ir até as empresas para realizar algum trabalho referente à sua área e, portanto, demonstrar a importância do seu curso para a sociedade (os alunos de Arquivologia da Empresa Júnior da Unesp de Marília, há um tempo atrás, tinham o hábito de ir até algumas empresas da cidade e da região para trabalharem na organização do acervo da instituição); possibilidade da participação dos usuários (como opiniões) nos produtos e serviços desenvolvidos pela biblioteca, uma vez que o papel dessas instituições é desenvolver suas atividades de acordo com as necessidades e desejos de suas comunidades”.

 

“(…) golpes de navalha e cachaça: confira poema de Lilian Sais, autora de Acúmulo, (Editora Patuá, 2018)

Lilian Sais é escritora, pesquisadora e idealizadora, ao lado do também escritor Ricardo Terto, do projeto Literarteria, que busca reunir ensino e difusão, acessibilidade e conhecimento. Lilian e eu lançamos nossos livros (Acúmulo, dela, e Lua em Libra, meu) em São Paulo, no Patuscada, bar e livraria da Editora Patuá (casa publicadora de ambas), em agosto de 2018. Convidada a colaborar com o blog “Arte, transformação e identidade”, Lilian enviou o poema abaixo:

não paro de pé,

mas sigo

 

nada mais insolente

que a insistência

 

minhas vias são os vãos

e percorro todos,

 

veredas abertas a golpes

de navalha e cachaça:

 

se restam duas pernas

e dois braços

 

ainda pode ser bípede,

mesmo que por agora

 

rasteje.

 

*

 

(Esse poema faz parte da última das 5 partes do livro “Acúmulo”, intitulada “Minhas duas mãos quebradas”)

Linha editorial para blogs (#2)

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Linha editorial é, basicamente, a definição do que será publicado no blog, em termos de assunto e de abordagem: ao se delimitar a linha editorial, fica clara também a mensagem que será transmitida ao público. A grande vantagem de um blog é que você pode falar abertamente quais são seus interesses pessoais com aquilo, e de onde partiu para chegar até a ideia do blog. Considero que quanto mais pessoal for a relação entre esse ponto de partida e o resultado final, mais chances de que o conteúdo desperte empatia e encontre seu público. Sim, assim como com os livros, há públicos para todo o tipo de blogs.

Meu foco, nesse artigo, é em blogs de caráter informativo, simplesmente porque esse é o tipo de blog que sempre desenvolvi. Esse caráter não impede, entretanto, que o blog tenha, por vezes, um caráter mais reflexivo ou mesmo artístico. Resolvo essa questão criando uma página, ou categoria, para abrigar os posts nessa linha.

Uma regra popular no jornalismo é responder a cinco questões na hora de escrever um texto: o que, quem, quando, onde, como e por que. Eu gosto de “responder” a essas perguntas na hora de desenhar o blog. Explico com o exemplo do blog que criei recentemente para o projeto Arte, transformação e identidade:

  • o que: o blog é um suporte que permite integrar e divulgar em um único canal atividades que desenvolvo ou das quais participo, e que agrega postagens relacionadas aos três eixos do próprio projeto;
  • quem: eu mesma, pessoalmente e profissionalmente, represento o blog, e essa representação, além de meus valores e interesses pessoais, inclui minha formação acadêmica;
  • quando: defino como a regularidade de atualização do blog, que neste momento inicial é diária. Tenho cinco categorias de postagens: entrevistas que se transformam em artigos assinados, quando utilizo integralmente as respostas às perguntas que envio às pessoas; entrevistas que se transformam em matérias, quando utilizo as respostas como citações entre aspas, atribuídas à pessoa entrevistada, complementadas com informações de minha autoria, postagens de amigos e conhecidos que se relacionam com a proposta do blog e que eu peço licença para incluir dentre as demais postagens como artigo de opinião, trechos ou íntegra de poesia e prosa, sob licença do autor ou autora, textos baseados em material de divulgação que se transformam em resenhas descritivas e matérias sobre as rodas de conversa do projeto.
  • onde: defino como a rede social na qual o blog será divulgado, e que neste caso são duas, Facebook e LinkedIn;
  • como: é a maneira de divulgação, que no meu caso é diretamente feita por mim, a partir de uma publicação em meu próprio perfil. Em alguns casos, o entrevistado ou colaborador contribui para a divulgação através de seu próprio perfil.
  • por que: defino como o propósito do blog, que vai além da pergunta inicial. O meu é o espalhamento da informação em várias direções, tanto para difundir conhecimento quanto para incentivar a reflexão e enriquecer debates. Saudáveis, espera-se, pois de ranço e rancor o mundo já está cheio.

 

Panamá, um pequeno país cheio de grandes contradições, por Ana K Rodrigues, jornalista

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Ana K. Rodrigues nasceu no Sul de Minas Gerais, fez faculdade em Bauru, no interior paulista, e passou a maior parte da vida em São Paulo. É jornalista pela Unesp, mestre em Multimeios pela Unicamp e especialista em Literatura Ibero-americana pela Universidad Complutense de Madrid. É apaixonada pela cultura e história da América Latina e há quase dois anos vive no Panamá, onde trabalha como redatora, editora e tradutora freelancer

O que você sabe sobre o Panamá? Provavelmente, o mesmo que eu antes de me mudar para cá: que é um país pequeno, localizado em um istmo entre os oceanos Pacífico e Atlântico, com um canal que separa a ambos e movimenta a economia local. É também lembrado como um grande centro de lavagem de dinheiro do narcotráfico da região. A investigação internacional Panamá Papers destapou uma caixa de pandora que além de incluir isso, também cita empresas fantasmas, propinas múltiplas a membros do governo e do judiciário, o que também contribuiu para a má fama do pequeno país.

Em quase 20 anos, o Panamá é o país que mais cresce na América Latina (5,5%, em 2017) desde que o canal, antes administrado pelos norte-americanos (que o construíram em 1913) voltaram às suas mãos, em 2000. O país já foi apontado como “a Dubai Latino-americana”, pelo skyline formado por edifícios altíssimos e de arquitetura de gosto duvidoso, e também por atrair empresas.

Há dez anos houve uma redução na carga tributária para empresas multinacionais que quisessem se instalar aqui, o que fez com que Samsung, Adidas, Maersk, Nestlé, Dell e dezenas de outras trouxessem seus escritórios regionais para cá. A força do dinheiro é implacável, como a desigualdade social. De acordo com a Organização das Nações Unidas, quatro entre dez habitantes do país de 4 milhões de habitantes vive em situação de pobreza extrema.

Há exatamente um ano e sete meses viemos morar aqui. O motivo desta mudança drástica foi que a multinacional alemã na qual meu marido trabalhava em São Paulo centralizou grande parte de suas operações aqui, na capital panamenha, Ciudad de Panamá.

Confesso que não tive a melhor das recepções quando ele chegou em casa me contando sobre esta proposta, demorada e pacientemente. Meu primeiro pensamento foi “que raios eu vou fazer no meio do nada, lá na América Central?” E naquele já distante momento eu notei que sabia bem pouco sobre esta parte do continente, e menos ainda sobre este país onde temporariamente fincaríamos nossa âncora.

 A farsa da América Latina

Mesmo que nos digamos latino-americanos, nós brasileiros sabemos bem pouco dos nossos países vizinhos, além do que aprendemos em férias regadas a vinho, carne e doce de leite no Uruguai, na Argentina e no Chile. Muitos dos nossos compatriotas também já estiveram em praias do Caribe que foram colônias espanholas, como Cuba (já fui mandada para lá milhares de vezes, mas ainda não conheço)e República Dominicana. A Venezuela, que há muito tempo era vista com desconfiança em nosso país, agora se tornou alvo de ódio da extrema direita e vítima de xenófobos que não querem a presença de refugiados desta origem em solo brasileiro.

A existência ou não de uma América Latina é tema de diversos estudos, mas é importante lembrar que esta foi uma nomenclatura criada por sociólogos e economistas europeus, que não sabiam como nomear aquele bloco de país tão parecidos, mas tão diferentes.

Essas diferenças são tão grandes que afundaram a Gran Colômbia, o projeto de “um país gigante” criado por Simón Bolívar (um dos personagens mais importantes da história da América Latina, mas tomado como figura maldita entre apoiadores da direita em todo o bloco), que reunia Equador, Colômbia, Panamá e Venezuela.  As semelhanças culturais entre os três últimos é grande, mas os interesses econômicos, políticos e os egos eram tão gigantescos que o projeto durou apenas 10 anos (de 1819 a 1829).

Quintais dos Estados Unidos, infelizmente

Mas falemos da América Central, que naquela tarde chuvosa de novembro de 2016 fui perceber que pouco sabia sobre. No Brasil, a gente estuda na escola muito por cima o que foi o domínio norte-americano aqui. O que foram as guerras civis em El Salvador, na Nicarágua e em Honduras, todas acontecidas ao final dos 70 e início dos anos 80.

Tampouco ficamos sabendo que o bloco central também já foi um só país, a República Federal da América Central, que abarcava Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua e Costa Rica. Como a Gran Colômbia, também fracassou, apesar de ter tido uma sobrevida maior (16 anos, entre 1823 e 1839).

O “Destino Manifesto”, a assustadora crença que os colonizadores ingleses plantaram nos Estados Unidos de que todo território americano lhe deveria pertencer (pensamento que infelizmente se mantém até hoje) deu o tom da história da América Central, fazendo com que esses países se tornassem grandes quintais gringos.

Essa sanha quase religiosa em intervir e dominar aqueles países fomentou uma constante situação de crise e dependência, que se reflete hoje nas estatísticas: milhares de pessoas de origem hondurenha, nicaraguense, guatemalteca e salvadorenha (não, Mister Trump, não são todos mexicanos) que, sem alternativas em seus países corroídos pela violência e a pobreza, buscam nova vida no lugar que um dia o dominou. E estão sendo mandados de volta, por um governo intolerante e ignorante.

 Síndrome de Estocolmo

No caso do Panamá, que tecnicamente não é considerado membro da América Central, mas para efeitos práticos o é, tomei um grande choque quando cheguei e o conheci. Antes de virmos li tudo o que podia sobre a história, a política, a cultura e a economia locais.

Meu marido, que já tinha vindo para cá várias vezes por motivos de trabalho, sempre compartilhava suas impressões comigo, e elas não eram das melhores. Ao chegar me impressionei ao perceber que minha família passaria pelo menos três anos em um lugar em que o american way of life era copiado ao máximo: SUV’s por todos os lados, condomínios parecidos a outros comuns em  cidades da Flórida e um espanhol pontilhado por expressões em inglês. Aqui entendi na prática o que é o spanglish, uma mescla do idioma anglo-saxão com o espanhol.

Passei meses odiando estar aqui, sentindo falta de coisas simples que eu fazia em São Paulo, como andar de metrô (aqui transporte público é um tema complicado, e como em outros países ditos latino-americanos, é visto como “coisa de pobre”) ou ir ao cinema para ver algo que não fosse um enlatado americano, ou uma exposição interessante. Mas também tentei me abrir e conhecer melhor este país de gente calada e orgulhosa, que foge daquele estereótipo de povo latino caloroso e festivo.

E descobri muitas coisas, ruins e boas. O culto aos norte-americanos ainda tem cheiro de Síndrome de Estocolmo, aquela situação em que o refém se afeiçoa pelo sequestrador. Além da invasão norte-americana em 1989, que foi motivada pela prisão do general Manuel Noriega, que governava o país à época e tinha negócios com o narcotráfico, houve também o caso do canal.

Sem dúvida uma das obras de engenharia mais impressionantes do mundo, o Canal do Panamá foi construído pelos norte-americanos, que ajudaram o país a se libertar da Colômbia (depois de ser uma colônia espanhola independente, o Panamá se tornou uma província colombiana), em 1903. Como contrapartida por haver  “dado este presente” para o país, os norte-americanos ganharam a concessão eterna do local. Esta situação só mudou em 1977, quando um acordo entre os dois países estabeleceu que, ao final de 1999, o canal voltaria às mãos panamenhos.

Durante o domínio norte-americano, a cidade do Panamá foi dividida entre a zona do canal (onde viviam e trabalhavam os profissionais gringos) e o resto da cidade. Panamenhos precisavam apresentar passaporte para chegar a alguns bairros. E houve uma série de batalhas e disputas territoriais na capital nos anos 1960 e 1970, inclusive com mortes.

Por isso tudo, ainda não houve nada que me explicasse o porquê de ao invés de odiar os norte-americanos, os panamenhos os copiam. Há pouca literatura sobre, como se o tema fosse um tabu, e pouca discussão em nível universitário e acadêmico sobre o impacto disso na cultura panamenha.

Foi aí que em conversas com gente daqui e lendo coisas aqui e acolá que entendi que o spanglish falado aqui não tinha raízes apenas norte-americanas, mas também estava relacionada aos milhares de trabalhadores que vieram das Antilhas Britânicas (jamaicanos, barbadenses e bahamenses, em sua maioria) também deixaram sua marca.

Grande parte da cultura negra panamenha atual (música, moda, cinema e literatura) é resultado da mescla entre os costumes locais, herança dos colonizadores espanholes e invasores norte-americanos, além dos de centenas de imigrantes que fizeram parte da construção do Canal.

Pouco a pouco fui explorando a cidade fora dos bairros de classe média e média alta onde vivem, em sua maioria, expatriados como a minha família. Muitas destas pessoas jamais cruzaram a cidade e viram o nível altíssimo de pobreza de suas áreas mais periféricas, preferindo viver numa bolha. Os panamenhos são desconfiados, fechados e não muito abertos a estrangeiros, muito por seu histórico. Demorei a fazer amizades por aqui, que ainda são poucas.

Há aqui muitos problemas, muitas perguntas sem resposta (como esta inexplicável devoção a quem dominou o país por tanto tempo), mas também muita coisa interessante para se aprender por aqui. Ainda não me sinto 100% em casa e creio que em país nenhum que não seja o nosso existe este sentimento de pertencimento incontestável. Ainda sofro pela falta da família, dos amigos, da vida cultural e intelectual de São Paulo. Mas não me pergunto mais o que estou fazendo aqui: estou vivendo e aprendendo ao máximo que eu puder.

 

 

A força transformadora do Caminho de Santiago, por Telma Puga, farmacêutica bioquímica

telma

Eu sou a Telma Puga, 45 anos, farmacêutica bioquímica. Me formei em farmácia em 1998 pela Universidade de São Paulo e desde então trabalho na área de produção de medicamentos, que é uma área que envolve uma dinâmica bem especial, a de lidar com pessoas (muitas) e processos (muitos também), ao longo dos dias. Durante esses anos de trabalho, acabei fazendo cinco pós-graduações, entre ela Homeopatia e Medicina Antroposófica que me deram grandes insights de autoconhecimento da vida. No meio de tudo isso, também fiz astrologia e os Caminhos de Santiago, algo que na Espanha são incluídos no CV profissional pois acreditam que é um diferencial  na hora da contratação, mas pra mim, considero no meu “CV de vida” mesmo.

Atualmente sou responsável pela produção de medicamentos da Weleda, indústria farmacêutica suíça, que representa parte da antroposofia através da medicina e farmácia antroposóficas, e onde encontrei um caminho profissional e pessoal que se unem e fazem muito sentido pra mim, em função da abordagem holística da medicina e dos medicamentos, tratando o processo de saúde de maneira integrada: Corpo – Mente – Espírito.

O Caminho de Santiago era algo sonhado há muito tempo, e por questões profissionais, familiares, problemas da vida cotidiana, não havia se concretizado. Mas foi em 2010, Ano Santo, que tudo começou. Fizemos a rota mais tradicional, do Caminho Francês. Foi bastante desafiador, pois estava num momento de vida super complicado, treinei pouco, mas fomos mesmo assim, eu e meu marido, levamos as bikes daqui e foi uma experiência maravilhosa! Paisagens, a nova cultura, as amizades, a solidariedade, o aprendizado,  a superação… Chegar em Santiago foi a emoção mais intensa que senti na vida, acredito que por todo o autoconhecimento que a peregrinação proporcionou. O tempo todo fazemos a analogia entre o  Caminho e vida: o que está te machucando, precisa retirar; o que está pesando precisa rever. Voltamos sempre pessoas melhores, mais leves e mais simples, como acreditamos que deva ser mesmo.

Daí para frente não paramos mais… ao todo foram quatro rotas do Caminhos de Santiago: dois caminhos franceses, um Via de la Plata e um via Lemovicensis, que sai de Vezélay, no interior da França e chega em Santiago via Caminho do Norte. Todos de bicicleta. Esse ano faremos o Caminho do Norte novamente, começando em Bordeaux logo após a maratona de Medoc, que vamos correr!

Uma das muitas experiências do caminho é a experiência gastronômica. A culinária espanhola é muito rica em sabores e variedades e, como adoro cozinhar (e comer), foi algo que me chamou muita atenção desde o começo. Ficava investigando as receitas, perguntando para os hospitaleiros como preparar, e por isso acabei fazendo a palestra na Associação dos Confrades e Amigos do Caminho de Santiago (ACACS) que explorou um pouco o tema. Os pratos espanhóis não se resumem só  aos consagrados como paellas, tortillas, bocadillhos, jamóns, que aparecem em todas as regiões, mas há também  os regionais, que variam de acordo com a agricultura, pecuária e pesca local. Isto traz uma gama de sabores incríveis, e uma criatividade admirável! A Espanha tem vários dos melhores restaurantes do mundo, de acordo com o guia Michelin, o que reforça a magnitude de sua gastronomia.

A cada caminho, fazemos sempre muitas amizades; amizades que são mantidas ao longo dos anos, acredito que pela afinidade e aliança de propósitos que temos com o Caminho. Temos muitos temas em comum para conversar, é como se fizéssemos parte de uma sociedade iniciática que só os membros entendem as emoções e a ligação profunda com o caminho.

Procurei a Acacs pois gostaria de fazer algo pelos peregrinos iniciantes,  por agradecimento e gratidão a todos os aprendizados dados pelos Caminhos e por Santiago, e para poder ajudar de alguma forma a proporcionar experiências tão maravilhosas quanto as que tive. Estar em contato com os peregrinos é também uma forma de estar em contato com o Caminho e com toda a força transformadora que ele gera, há milhares e milhares de anos.